sábado, 13 de agosto de 2011

Gustavo Ferro, junho de 2011
Projeto de Residência Casa das Caldeiras

Convêm ocupar um estúdio na Casa das Caldeiras a partir do segundo semestre de 2011, para dar desenvolvimento prático e conceitual a questões referentes a apropriação e intervenção urbana, que experimentei mais intensamente a partir da residência realizada no Centro de Produção Hangar em Barcelona. A experiência de deslocamento para um território estrangeiro incentivou a prática de ações efêmeras no ambiente das ruas. Me interesso pela região que ocupa a Casa das Caldeiras e seu entorno, meu deslocamento pela cidade e pelo bairro será o suporte para a realização da minha pesquisa.

Intervenção da série Vallas, Barcelona, 2010

As experiências de deslocamento são determinadas pelo percurso de cada individuo na cidade e se manifestam de forma banal. Tenho como ponto de partida a observação de situações urbanas (como nomeio uma série de registros fotográficos que faço na cidade), que são minhas maiores referências para a realização de trabalhos, na qual proponho um olhar atento a gestos comuns que desencadeiam mudanças perceptivas no mundo que nos cerca no cotidiano.

(...) as muralhas que delimitam a nossa existência. Mas com a mente habitamos esse espaço de forma mais maleável. Consigo ver minha sala através da parede, mesmo com as portas fechadas, o meu corpo é como se fosse essa casa, neste momento o sinto como tal. Não é sempre que terei esse controle, mas em meu próprio corpo (carne e osso), não tenho total liberdade, não há como impedir certas intoxicações / venenos que entram pelas janelas - deficiências do próprio meio. Eu me sinto na pele da frase: “Mais vale viver no provisório do que no definitivo”[i] em relação ao sentido de habitar, de se relacionar. Vejo esse sentido nas situações urbanas, onde nos acomodamos com uma forma orgânica sempre mutante e provisória. Dando um jeito para que o meio não pare – não morra / por uma falta de cumplicidade entre um corpo que mantém os membros em pura putrefação[ii]... Uma sociedade que conserva o degenerado, aquilo que é precário, justamente por ser transitório e passageiro... mas uma passagem que sempre retorna ao seu estado de falência. O estado natural.

(apropriação?, intervenção?) da série Situações Urbanas, São Paulo, 2010 

Pretendo viabilizar projetos de intervenções, dar andamento a série de fotografias que focam em situações improvisadas e casuais na cidade, experimentar a reconstrução de situações urbanas em forma de instalações, entre outras coisas... ser inventor de sentidos no próprio percurso.

Vista da exposição Equilíbrio Instável, Estúdio Valongo, Santos, 2011


[i] BACHELARD, Gastón; A poética do espaço; tradução Antonio de Pádua Danesi – São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 62
[ii] NIETZSCHE, Friedrich; Ecce Homo, p. 106 “O fisiólogo exige a extirpação da parte degenerada, renega qualquer solidariedade com o degenerado, é quem esta mais distante de mostrar piedade com ele. Mas o sacerdote quer justamente a degeneração do todo, da humanidade: por isso ele conserva o degenerado –“  

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